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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

As cartas que nunca enviei - II carta




Minha querida,
As noites estão cada vez mais frias e nem aquele cobertor velho que tantas vezes nos aqueceu no inverno. Lembras-te do velho cobertor? Ainda o guardo religiosamente. Na verdade ele já não me aquece mais, descobri agora que não era ele mas sim você que me aquecia. Gosto de pensar que ele ainda tem teu cheiro, quando na verdade eu gosto é de imaginar essa sensação, pois seu cheiro agora é de saudade.
Sei que estas bem, e isso me deixa feliz, que encontraste no silencio das montanhas na felicidade eterna, que plantaste uma árvore de amor e dela colheste uma nova paixão.
Quanto a mim será que pergunta? Quanto a mim passo as noites remexendo o corpo coçando a cabeça relembrando cada segundo teu sem esquecer cada momento que ainda vive em mim. Acabei de pintar a tela que você tanto queria ver, pintei também os dias que não mais tivemos, para dar um ar mais fresco a casa, abri as janelas e deixei arejar. Não me condenes, ou condenas? Mas tenho que ocupar a dor, por isso deixa-me falar! Queres ouvir? Na verdade já não me lembro como é teu rosto, apenas como era, já não sei como era teu corpo mas mantenho na memória tua alma bem latente. O tempo só leva o tempo, deixando o resto tudo igual. Esta noite o nevoeiro descia dos céus qual legião escura tapando minha visibilidade para o mundo, na solidão que a muito me acompanha cada passo fazia o soalho ranger, o vento estava presente, tentando me falar mas não conseguia entender. Tentei te procurar em cada estrela, loucura minha talvez, mas nenhuma reluzia como tu nas noites quentes de verão. Eu sei de ti, mesmo sabendo que não sabes de mim, apenas te escrevo para poder continuar o sonho.
As flores que plantaste no jardim já cresceram, as chuvas tem tratado bem delas, como eu queria que visses sua beleza, o jardim esta cada vez mais a teu gosto, tratei de tudo como querias. A laranjeira cresceu, como careceu dando laranjas doces, como queria que visses isto tudo. Ainda me lembro tu no alpendre de olhar sincero comendo  laranjas. O forno a lenha ainda espera teu pão fresco, eu tenho cortado a lenha, mas desculpa já me esqueci como ligar o velho forno pois isso era tarefa tua
Deixei a porta entre aberta pois mudei a fechadura, os fantasmas ainda me visitam aquele que viviam em ti.
Talvez um dia te envie esta carta. Me despeço minha querida na esperança que a vida te perdure, pois sei que ganhaste ar nas montanhas e que plantaste amor colhendo uma nova paixão.

Sempre teu,
Marujo das palavras

7 comentários:

MariAne disse...

Um texto teu combinou com sentimento meu, raptei e postei lá em casa...

http://tintadotinteiro.blogspot.com/2011/01/prisioneiro-de-mim.html

Abraços desta Mari

Wanderley Elian Lima disse...

Olá Filipe
Gostei do que vi por aqui. Parabéns.
Bjux

* verinha * disse...

Por vezes o que nos resta é a companhia das cartas que nos levam a recordar e nos servem de alento quando nelas depositamos nossos sentimentos que não mais nos cabem no coração!

Uma beijoca em seu coração Filipe!

Juliane S. Rocha disse...

Que maravilha o que escreves. É tão dificil não ter mais um cobertor que aqueça, mas não devemos ficar presos a apenas uma flor no jardim.
Beijos amei teu blog

Guaraciaba Perides disse...

se é tudo verdade receba minha solidariedade mas se é texto poético, lembre-se de Fernando Pessoa:" o poeta éum fingidor
finge tão completamente
que finge sentir que é
dor
a dor que deveras sente"
Um abraço fraterno

Zil Mar disse...

Oi Filipe....

Escrever uma carta tão linda...dizendo coisas tão profundas...e não mandar....


"apenas te escrevo para poder continuar o sonho"

bjos!!!!!

Zil

Cláudia Matos disse...

Bem... esta carta... sem palavras :p
Está... divinamente bonito e sentido *.*